Jesus nos foi dado por Deus no Natal

Jesus Cristo nos foi dado por Deus no Natal. Diz o profeta Isaías: “Nasceu-nos um menino, foi-nos dado um filho”(9,6). Jesus foi filho de Salto (cfr Vulgata 2 Samuel,21,19 ) na pregação e na paixão. Na pregação porque escolheu os apóstolos como árvores que se lançam para o alto; com efeito, assim ele diz: “Eu vos escolhi para irdes e dardes fruto”( Jo 15,16). Na paixão, porque foi coroado com os espinhos dos nossos pecados. Foi fabricante de vestes coloridas na ressurreição; nela reparou com a agulha do seu poder e da sua sabedoria a túnica colorida, isto é , a carne gloriosa tomada da Virgem Maria, estendida por nós sobre o lenho da cruz, rasgada pelos cravos, transpassada pela lança e a restituiu à imortalidade. Para nós ele será “betlemita” na eterna felicidade onde seremos saciados e o veremos frente a frente. Por isso é que se diz com toda justiça: “Todo presente ótimo”. O Pai das luzes, como generoso e misericordioso esmoler deu a nós, pobres, não somente vinho bom ou melhor, mas o ótimo. “E todo dom perfeito”.

Diz o Apóstolo Paulo: ”Juntamente com ele, nos doou todas as coisas ” (Rom 8,32); e de novo: “ Deus colocou Cristo como Cabeça da Igreja” ( Ef 1,22). E acrescenta a Glossa: Ele não pôde dar um dom maior. E com justiça Cristo é chamado como “todo dom perfeito”, porque quando o Pai no-lo doou, realizou por seu meio todas as coisas. Com efeito, “o Filho do homem veio para salvar o que estava perdido” (Mt 18,11). Por isso a Igreja, no intróito da missa, exorta: “Cantai ao Senhor um cântico novo” (sal 97,1), como se dissesse: Ó fiéis! Salvos e renovados por meio do Filho do Homem, cantai um canto novo. Deveis jogar fora as coisas velhas, porque estão chegando as novas (cf Lv 26,10). Cantai, repito, porque Deus Pai realizou coisas maravilhosas quando enviou a nós o ótimo presente, isto é, o seu Filho. “Na presença dos gentios ele revelou a sua justiça”( Sal 97,2). Quando nos deu todo dom perfeito, o próprio Unigênito que justifica todas as gentes e tudo realiza e leva à perfeição. Justamente, portanto, se diz: “Todo dom perfeito”. Tudo ele criou em seis dias. “Disse e foi feito”( Sal 148, 5). No sexto período “o Verbo se fez carne”. No sexto dia e na hora sexta (meio dia) sofreu por nós e assim cumpriu tudo. Com efeito disse sobre a cruz: “Tudo está consumado” (Jo 19,30). Como é grande a distância entre o dizer e o fazer assim o foi entre o criar e o re-criar. Rápida e fácil foi a criação que aconteceu somente com uma palavra, aliás, só com a vontade de Deus, cujo dizer é querer.

A re-criação, porém, foi muito difícil porque aconteceu com a paixão e a morte. Adão foi criado com facilidade e com grandíssima facilidade ele caiu. Ai de nós, míseros, que fomos recriados e remidos com tão grande paixão, tão grandes sofrimentos e dores, e, depois, com tão grande facilidade pecamos gravemente e tornamos inútil tanta fadiga do Senhor. O próprio Jesus o diz pela boca do profeta Isaías: “Cansei-me no vazio, para nada e em vão gastei as minhas forças”( 49,4). Na criação o Senhor não se cansou porque “fez todas as coisas que quis”, mas na recriação cansou-se bastante, tanto ‘que o seu suor foi como gotas de sangue que escorriam pela terra” (Lc 22,44). Se ele experimentou tão grande sofrimento na oração, quanto que ele não experimentou na crucificação? Portanto, o Senhor cansou-se e assim nos arrancou das mãos do diabo. Ao contrário, nós, pecando mortalmente, caímos de novo nas mãos do diabo e , dependendo de nós, tornamos vã a fadiga do Senhor. Por isso ele diz: Trabalhei em vão, para nada, isto é, sem nenhuma utilidade. Não vejo nenhuma vantagem na minha paixão porque “não existe ninguém que faça o bem, ninguém!” (sal 13,1). “O homicídio, o adultério, a blasfêmia, o furto, a maldição e a mentira se espalharam e derrama-se sangue sobre sangue” (Os 4,2). “Os sacerdotes não perguntaram: onde está o Senhor? Os guardiães da lei me ignoraram e os pastores – isto é, os prelados – se revoltaram contra mim, e os profetas – isto é, os pregadores – profetizaram em nome de Baal”( Jer 2,8), isto é, em lugares altos, pois pregam para se mostrarem superiores aos demais. É por isso que o Senhor diz: “Em vão eu trabalhei, para nada, em vão eu gastei as minhas forças”.

A força da divindade quase se consumou na fraqueza da humanidade. E não é mesmo aí que a força se consumiu quando ele, Deus e Homem, foi amarrado a uma coluna como um ladrão, foi flagelado com golpes, foi esbofeteado, foi coberto de cusparadas, lhe foi arrancada a barba e sua cabeça que faz tremer os anjos foi ferida com uma vara e foi crucificado entre dois ladrões? Ai daqueles miseráveis, mesquinhos e estultos, que nem diante desses fatos, se convencem para fugir das vaidades do mundo. Em vão ele gastou suas forças, porque vãos se tornaram aqueles pelos quais ele as gastou. É preciso, portanto, ter um grande temor que, como no início ele disse: “Arrependo-me de ter criado o homem”, não diga também agora “Arrependo-me de ter remido o homem, porque gastei todas as minhas forças, mas a malícia deles não foi destruída!” A respeito diz o profeta Jeremias: “O foleiro sopra para atiçar o fogo e derreter o chumbo, mas o trabalho do fundidor é inútil pois a ganga (sujeira) não se desprende. Prata de refugo é o nome deles, porque o Senhor os rejeitou”( 6,29-30). Nesta citação, há 5 coisas a considerar: • o fundidor • o foleiro • o fogo • o chumbo • a prata O fundidor significa a divindade O foleiro indica o pregador O fogo lembra a paixão de Jesus O chumbo é imagem da humanidade de Cristo A prata mostra as nossas almas. Na fornalha de fogo a prata é purificada e fica livre do chumbo e é refinada. Para acabar com a sujeira da prata, isto é, a malícia de nossas almas, colocaram-se juntos Deus e o Homem e a sua pregação. Mas inutilmente o fundidor fez a fusão e gastou em vão suas forças. O foleiro desapareceu e o chumbo foi consumado no fogo da paixão e assim sofreu em vão e para nada, porque as nossas maldades não acabaram. Por isso, a prata suja será jogada no curral da geena, porque as almas dos pecadores serão jogadas no lago do fogo ardente. Cristo teve uma dupla herança: uma, por parte da Mãe, isto é, a fadiga e a dor. A outra, por parte do Pai, isto é, a alegria e o repouso. Portanto, pelo fato de sermos co-herdeiros de Cristo, nós também devemos buscar essa dupla herança. E erramos se quisermos ter somente a segunda, isto é, a glória, sem a primeira, isto é, o sofrimento, porque o Senhor fundamentou a segunda sobre a primeira e nós não podemos procurar a segunda sem a primeira. Ele enxertou a árvore da vida na árvore da ciência do bem e do mal quando o “Verbo se fez carne”. Por isso, ele será “como uma árvore plantada junto às águas”. E Isaías: “Ele fundou a terra e plantou os céus” (51,16). Na terra da humanidade, fundamentada sobre as sete colunas da graça septiforme (dos sete dons do Espírito Santo), Deus plantou os céus da divindade. Procuremos, portanto, possuir a primeira herança de Cristo para merecermos chegar à segunda.

E rezemos: Nós Vos pedimos, ó Senhor Jesus: Vós que subistes deste mundo ao Pai Na forma da nossa humanidade, Arrastai-nos atrás de Vós com a corda do vosso amor. E suplicamos: não nos acuseis de pecado, Ajudai-nos a imitar a justiça dos santos, Fazei-nos temer o vosso juízo E infundi em nós o Espírito de verdade Que nos ensine a verdade total. Concedei-nos tudo isso Vós que sois bendito e glorioso Por todos os séculos dos séculos. E todos digam: Amém, aleluia!

(Sermões, vol. I, pp. 313-317)
Tradução: Frei Geraldo Monteiro, OFM Conv